Entre bandeiras, transmissões e camarotes, vale perguntar: quem ficou responsável por representar o Brasil enquanto seus representantes acompanham os jogos?
Há um velho ditado que diz que o futebol é a paixão nacional. E é mesmo. Durante a Copa do Mundo, o país muda de ritmo. Expedientes terminam mais cedo, ruas ficam vazias, famílias se reúnem diante da televisão e, por noventa minutos, quase todos concordam sobre alguma coisa.
Até aí, tudo perfeitamente compreensível.
O problema começa quando aqueles que deveriam estar trabalhando para o país passam a agir como se também estivessem escalados.
Nos últimos dias, vimos parlamentares assumindo o papel de repórteres esportivos, comentando bastidores, entrevistando jogadores, registrando cada detalhe da competição como verdadeiros correspondentes internacionais. Outros, conhecidos comentaristas políticos e agentes públicos, trocaram temporariamente os debates sobre orçamento, segurança, saúde e reformas pelas análises táticas do meio-campo.
Nada contra gostar de futebol. Aliás, eu gosto e quem não gosta?
A questão não é a Copa. É a prioridade.
Porque, enquanto milhões de brasileiros acompanham os jogos nas poucas horas livres que lhes restam depois do trabalho, há quem faça exatamente o contrário: transforme o trabalho em intervalo para acompanhar os jogos.
E isso deveria causar algum desconforto, pois a democracia não entra em recesso porque a bola começou a rolar. Os problemas do país também não.
As filas do SUS continuam existindo durante a Copa. Os processos judiciais continuam chegando aos fóruns. A inflação não diminui porque houve classificação para a próxima fase. A violência contra mulher não pede tempo técnico. O desemprego também não espera o apito final.
Quando alguns agentes públicos desaparecem da cena política em nome de agendas que pouco têm relação com o mandato que receberam, tudo parece tratado como mera descontração institucional.
Talvez seja apenas uma coincidência. Ou talvez estejamos normalizando uma confusão perigosa entre representação política e produção de conteúdo.
Torcer pelo Brasil nunca foi o problema. O problema começa quando o uniforme da torcida parece substituir, ainda que por alguns dias, a responsabilidade do cargo. Porque futebol aceita prorrogação, a política, não. O tempo que se escolhe perder durante o jogo dificilmente aparece nos acréscimos.
Dra. Débora Garcia Duarte