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O escândalo nunca é o crime. É a mulher
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O escândalo nunca é o crime. É a mulher

  • 22/06/2026 13:19:00
  • O Sudoeste
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Existe algo quase admirável na capacidade que a sociedade possui de errar o alvo

Uma mulher tem sua intimidade violada. Alguém grava. Outros divulgam. Centenas compartilham. O conteúdo circula em grupos de WhatsApp, chega às redes sociais e se transforma em entretenimento para pessoas que, curiosamente, ainda se consideram cidadãos de bem.
Mas, como em um passe de mágica, o crime desaparece.
A violação da privacidade perde espaço para a grande questão que realmente parece preocupar a coletividade: “Mas o que ela estava fazendo?”
É impressionante.
Temos um Código Penal, uma Constituição Federal, proteção à dignidade humana, ao direito à intimidade e à imagem. Temos, inclusive, um tipo penal específico para a divulgação de conteúdo íntimo sem consentimento. Mas nada disso parece ser tão relevante quanto a necessidade quase científica que algumas pessoas possuem de investigar a moral sexual de uma mulher.
Porque, aparentemente, o problema nunca é quem filmou.
Nunca é quem divulgou.
Muito menos quem encaminhou “só para mostrar”.
O problema é sempre ela.
A mulher deveria estar em outro lugar.
Com outra roupa.
Com outra postura.
Com outro comportamento.
Talvez, se possível, sem desejos, sem vida íntima e, de preferência, sem existir fora dos padrões de respeitabilidade estabelecidos pelo tribunal mais rigoroso do país: a opinião pública.
E é curioso observar como a moralidade brasileira possui uma incrível capacidade de enxergar apenas metade das pessoas envolvidas.
Quando um homem participa exatamente do mesmo contexto, sua reputação costuma sair praticamente ilesa. Ninguém discute sua criação. Ninguém questiona sua família. Ninguém afirma que sua carreira acabou. Sua sexualidade é tratada como parte natural da experiência humana.
Já a mulher continua carregando um fardo histórico: além de sofrer a violência, precisa apresentar uma defesa moral.
Como se fosse necessário provar merecimento para ter direito à dignidade.
No fundo, há algo de perverso nisso.
A sociedade se escandaliza menos com a existência do criminoso e mais com a existência de uma mulher que ousou ter uma vida privada.
E, talvez, seja justamente aí que esteja o maior problema.
Porque não estamos falando apenas de vídeos.
Estamos falando de reputações destruídas, de mulheres que abandonam empregos, mudam de cidade, desenvolvem depressão, ansiedade, medo e vergonha. Falamos de vidas que, em alguns casos, simplesmente não suportam o peso do julgamento coletivo.
Enquanto isso, os responsáveis pela exposição seguem escondidos atrás de frases clássicas da covardia moderna:
“Eu só recebi.”
“Eu só encaminhei.”
“Eu nem conheço ela.”
Como se a crueldade pudesse ser terceirizada.
Como se a responsabilidade desaparecesse na mesma velocidade em que se clica em “encaminhar”.
E talvez seja essa a maior ironia de todas.
Os autoproclamados guardiões da moral, aqueles que se sentem autorizados a apontar o dedo para a intimidade alheia, raramente percebem que existe algo muito mais obsceno do que qualquer conteúdo privado.
A ausência completa de humanidade.
Porque sexo nunca foi crime.
Ter uma vida íntima nunca foi crime.
Mas transformar a dor de alguém em espetáculo, em piada ou em passatempo de domingo revela uma miséria moral que nenhuma aparência de virtude consegue esconder.
No final das contas, a pergunta nunca deveria ser o que aquela mulher estava fazendo.
A pergunta é outra.
O que nós estamos fazendo?
Porque, convenhamos, é preciso uma dose considerável de arrogância para acreditar que a intimidade dos outros é um assunto público, enquanto a própria falta de empatia continua sendo tratada como mera opinião.
E, ironicamente, talvez seja exatamente essa a nudez que mais deveria causar constrangimento.
Dra. Débora Garcia Duarte

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