O início de um novo ano carrega sempre um simbolismo particular. É tempo de recomeços, de retomadas e, sobretudo, de escolhas. Escolhemos o que levamos conosco, o que deixamos para trás e o que insistimos em transformar. Retomar a escrita neste início de 2026 é, antes de tudo, reafirmar uma posição: escrever é um ato político. Ler também é. Porque a leitura desperta, provoca consciência e rompe com a naturalização da violência.
Encerramos 2025 com dados que não podem ser ignorados. O aumento expressivo dos casos de violência contra a mulher, especialmente no estado de São Paulo — que registrou, no período de fim de ano, o maior índice desde 2015 — revela que essa ainda é uma ferida aberta na sociedade brasileira. Não são apenas números. São histórias interrompidas, corpos marcados, vozes silenciadas. É um cenário que exige enfrentamento, responsabilidade institucional e, acima de tudo, vigilância social permanente.
É justamente por isso que esta coluna continua. E continuará ao longo de 2026. Falar sobre violência contra a mulher não é insistência excessiva; é necessidade. O silêncio nunca protegeu mulheres. A omissão nunca salvou vidas. A escrita política segue como forma de denúncia, de conscientização e de resistência, porque aquilo que não é dito tende a se repetir.
Mas começar um novo ano também nos permite olhar para frente. Há, sim, motivos para cultivar esperança. O trabalho de conscientização tem avançado, os debates públicos têm ganhado mais espaço e mais mulheres têm rompido ciclos de violência, buscado apoio e ocupado lugares que historicamente lhes foram negados. Ainda é insuficiente, mas é um movimento real — e cada avanço importa.
Que 2026 seja um ano em que as mulheres tenham mais voz e essa voz seja legitimada. Que estejam mais presentes nos espaços de decisão política, nos discursos públicos, nas instituições de poder e também naqueles lugares onde, por tanto tempo, lhes foi dito que não pertenciam. Que a presença feminina deixe de ser exceção e passe a ser reconhecimento.
A escrita semanal que se seguirá neste jornal carrega esse compromisso. Escrever para informar, provocar reflexão e contribuir para a transformação de uma cultura que ainda tolera a violência. Ler como ato de consciência. Resistir como prática cotidiana. Porque é assim, palavra por palavra, que se constroem mudanças duradouras.
Que 2026 nos encontre mais atentos, mais conscientes e mais comprometidos. Que nos encontre escrevendo, lendo e agindo.
E que seja, sobretudo, um ano de mais esperança, mais proteção e mais dignidade para as mulheres.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.