Entre a memória e o marketing, alguns preferem editar a própria história
Dizem que o passado é imutável. Na política, essa regra parece ter exceções curiosas, especialmente em tempos de pré-campanha.
Esse é o período em que ainda não se pede voto, mas já se constrói personagem. Ainda não há candidatura oficial, mas há discursos ensaiados, posicionamentos recalibrados e uma súbita necessidade de parecer aquilo que nunca se foi.
Momento também do qual surge um fenômeno recorrente: a reescrita conveniente da própria história. Não se trata de evolução, revisão honesta ou aprendizado público. É algo mais simples, rápido e, mais estratégico. Apaga-se o que incomoda, edita-se o que pesa e publica-se uma versão mais palatável de si mesmo, amigável digamos.
De repente, figuras já marcadas por falas infelizes, atitudes questionáveis ou episódios claros de desrespeito passam a ocupar um novo papel: o de defensores daquilo que antes ignoravam, minimizavam ou até atacavam. Não há mea-culpa, não há reconhecimento, não há mudança demonstrada. Há apenas… reposicionamento.
É o político que ontem diminuía mulheres em tom de deboche e hoje grava vídeos com trilha suave falando em respeito. O que se calava diante da violência passa a discursar como se sempre tivesse estado do lado certo. Milagre? Não. Pré-campanha.
A política tem dessas, transforma histórico em detalhe e discurso em identidade. Ajusta-se o roteiro, ensaia a indignação, descobre novas causas. Tudo muito bem iluminado, editado e publicado.
É nesse cenário que surge o fetiche pelo anúncio. Muito se fala, pouco se sustenta. Promessas grandiosas, compromissos genéricos, declarações emocionadas. A prática, essa segue ausente - ou incompatível com o que agora se diz.
E entre as pautas mais utilizadas nesse processo está, mais uma vez, a proteção das mulheres. As mesmas das quais foram utilizadas como chacota, desnecessárias, vistas como ferramenta estética de campanha quando conveniente.
A regra é clara, quem nunca protegeu, agora garante proteção. Mas tudo isso com uma condição clara: que ninguém se lembre.
Mas memória não é detalhe - é critério.
Porque, fora do roteiro da pré-campanha, a verdade costuma voltar sem edição.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.