A importunação sexual em rede nacional e o reflexo de uma cultura que insiste em violar
O recente caso de importunação sexual ocorrido dentro do Big Brother Brasil escancara uma realidade desconfortável: nem a vigilância constante, nem a transmissão ao vivo, nem a consciência de milhões de espectadores foram suficientes para impedir a violação do corpo e da dignidade de uma mulher.
Estamos falando de um ambiente hipercontrolado, com dezenas de câmeras, microfones abertos 24 horas por dia e regras rígidas de convivência. Ainda assim, a violência aconteceu. Isso nos obriga a fazer uma reflexão profunda e necessária: se nem sob vigilância absoluta o comportamento abusivo é contido, o que isso revela sobre a naturalização da violência contra a mulher na nossa sociedade?
A importunação sexual não é um “excesso”, uma “brincadeira” ou um “mal-entendido”. É crime. Está prevista no Código Penal e traduz uma prática cotidiana de objetificação do corpo feminino, na qual o desejo do agressor se sobrepõe à vontade, ao limite e à dignidade da mulher. O fato de isso ocorrer em rede nacional apenas amplia o alcance simbólico da violência.
Quando milhões de pessoas assistem a uma mulher sendo violada — ainda que a resposta institucional venha depois — há impactos profundos. Há mulheres que se reconhecem ali. Há homens que se sentem autorizados pelo silêncio inicial, pelas risadas nervosas, pelas tentativas de relativização. E há uma sociedade que, mais uma vez, é colocada diante do espelho.
O BBB não cria a violência. Ele apenas a expõe. O que vemos ali é o reflexo de um padrão social em que o corpo da mulher ainda é tratado como território disponível, passível de invasão, toque e comentário não consentido. O problema não está nas câmeras, mas na cultura que forma quem está diante delas.
Por isso, é tão perigoso minimizar o ocorrido ou tratar o episódio como “parte do jogo”. Violência não é entretenimento. Violação não é roteiro. E consentimento não é algo que se presume — é algo que se manifesta claramente.
A repercussão do caso, por outro lado, também revela avanços. A mobilização do público, a cobrança por responsabilização e o debate que se instaurou mostram que há um movimento social que não aceita mais o silêncio como resposta. Isso importa. Isso educa. Isso salva.
Que esse episódio sirva não apenas para punições individuais, mas para um debate coletivo sério sobre respeito, limites e igualdade. Porque se nem todas as câmeras do país impediram a violência, só uma mudança cultural profunda será capaz de fazê-lo.
E essa mudança começa quando paramos de perguntar “por que ela não reagiu” e passamos a questionar, com firmeza: por que ainda é tão difícil para alguns homens respeitarem o não?
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.