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Quando a procissão faz mais barulho que o processo
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Quando a procissão faz mais barulho que o processo

  • 02/02/2026 10:59:00
  • O Sudoeste
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Muito movimento para que nada essencial seja visto

Na política, há momentos em que o silêncio exige tanto esforço quanto o barulho. E, curiosamente, é justamente nesses momentos que surgem caminhadas repentinas, gestos grandiosos e discursos inflamados sobre valores elevados. Nada fora do lugar — apenas no tempo exato.
Não é que faltem fatos. Eles existem. Estão organizados, documentados e aguardam atenção. O problema é que fatos não rendem imagens fortes. Não emocionam plateias nem desviam manchetes. Para isso, é preciso algo mais visual, mais simbólico, mais… caminhável.
Assim, enquanto papéis pedem leitura, surgem ritos que pedem aplauso. Enquanto perguntas aguardam resposta, oferecem-se narrativas prontas, embaladas em moralidade e conduzidas em passo firme, como se o movimento físico pudesse substituir o avanço do esclarecimento.
Nada disso é acidental. O espetáculo político tem timing. Ele sabe quando entrar em cena, quando ocupar o espaço e quando elevar o tom. Não para explicar, mas para reposicionar o olhar. Afinal, quem acompanha o cortejo dificilmente percebe o que acontece fora do enquadramento.
É curioso como certos gestos ganham urgência justamente quando a paciência pública deveria ser dedicada à análise. A pressa, nesse caso, não é para esclarecer, mas para ocupar. Ocupa-se a pauta, o debate e, se possível, a indignação coletiva — direcionada sempre para longe do ponto sensível.
A fé, os símbolos e os discursos morais cumprem então uma função prática: não respondem a nada, mas protegem tudo. Funcionam como uma névoa respeitável, capaz de transformar investigação em perseguição e questionamento em ataque. Quem pergunta passa a ser o problema; quem encena, a solução.
Enquanto isso, o essencial permanece intacto, preservado pelo excesso de movimento. Porque na política do espetáculo, parar para explicar é sempre mais arriscado do que continuar andando. E caminhar, quando bem coreografado, dá a confortável sensação de avanço —mesmo quando se anda em círculos.
Em democracias maduras, gestos não substituem esclarecimentos. Caminhadas não encerram apurações. E moralidade não se comprova pelo volume do ato público, mas pela disposição de enfrentar o que está fora do palco.
Quando há barulho demais, convém ouvir o silêncio. Ele costuma dizer exatamente o que o espetáculo tenta esconder.

Dra. Débora Garcia Duarte 
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária. 
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo. 
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.

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