Todo dia 11 de fevereiro o mundo relembra o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. A data é importante, claro. Mas também carrega um incômodo silencioso: se ainda precisamos de um dia específico para falar sobre a presença feminina na ciência, é porque a igualdade continua sendo promessa, não realidade.
Durante séculos, a ciência foi tratada como território seletivo. Não por falta de talento feminino, mas por excesso de barreiras sociais, culturais e institucionais que decidiram quem poderia produzir conhecimento — e, principalmente, quem poderia ser reconhecido por ele.
A história científica está repleta de descobertas assinadas por homens que, na prática, foram construídas por mulheres invisibilizadas, ignoradas ou convenientemente esquecidas. O problema nunca foi a ausência feminina na produção científica. O problema sempre foi a ausência de espaço, voz e reconhecimento.
Os números ajudam a desmontar qualquer discurso otimista. Dados da UNESCO indicam que mulheres representam cerca de 33% dos pesquisadores no mundo. No Brasil, apesar de serem maioria no ensino superior e em diversos programas de pós-graduação, desaparecem progressivamente quando o assunto é liderança científica, financiamento de pesquisa e áreas estratégicas como tecnologia e engenharias.
Ou seja: as mulheres até entram na ciência — o sistema é que ainda insiste em mostrar a porta de saída quando elas tentam crescer.
Ignorar essa desigualdade não é apenas uma falha social. É um erro estratégico. A ciência depende da diversidade para avançar. Equipes plurais produzem soluções mais criativas, mais eficazes e mais conectadas com problemas reais. Quando mulheres ficam fora desses espaços, o conhecimento não fica neutro — ele fica incompleto.
E há um detalhe frequentemente tratado como simbólico, mas que é profundamente estrutural: representatividade. Meninas que não enxergam mulheres cientistas aprendem cedo que determinados espaços não foram pensados para elas. E nada limita mais o futuro do que aprender, ainda na infância, que sonhar tem teto.
Valorizar mulheres na ciência exige mais do que homenagens pontuais e discursos institucionais bem ensaiados. Exige políticas públicas, investimento em permanência acadêmica e ambientes profissionais que parem de reproduzir desigualdades históricas com aparência de normalidade.
Celebrar a data sem enfrentar essas questões transforma reconhecimento em protocolo e homenagem em marketing social.
A verdade é simples e desconfortável: quando mulheres são silenciadas na ciência, quem perde não são apenas elas. Perde a inovação, perde o desenvolvimento e perde toda a sociedade.
A ciência só será completa quando deixar de selecionar vozes e começar, de fato, a ouvir todas elas.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.