Nesta semana, recebi um post no Instagram, enviado por um amigo, que me fez refletir profundamente sobre as múltiplas camadas que envolvem o feminicídio. E foi ali, logo pela manhã, diante daquela leitura aparentemente comum, que me dei conta de algo incômodo: mesmo depois de mortas, seguimos julgando as vítimas, quase de forma automática, quase como se fosse natural.
Há algo profundamente inquietante na forma como a mídia retrata vítimas de feminicídio. Não se trata apenas de informar sobre um crime, trata-se de como essa história é construída, de quais elementos são escolhidos e, sobretudo, de quais sentidos são sugeridos ao público.
A escolha das imagens, por exemplo, está longe de ser neutra. Com frequência, são selecionadas fotografias que expõem a vítima em contextos de lazer, com roupas consideradas “sensuais” ou em poses que destacam seu corpo. Essa decisão, aparentemente banal, carrega um efeito simbólico poderoso: desloca o olhar do crime para a figura da vítima.
Não é apenas uma imagem, é um convite ao julgamento.
Ao enfatizar aspectos da aparência ou do estilo de vida, abre-se espaço para interpretações que nada têm a ver com a violência sofrida, mas que, ainda assim, passam a ocupar o centro da narrativa. A pergunta deixa de ser “por que ele matou?” e passa, ainda que de forma velada, a ser “quem era ela?”. E, pior: “como ela vivia?”.
Esse deslocamento não é inocente. Ele se ancora em uma lógica social profundamente enraizada, que insiste em condicionar a legitimidade da violência ao comportamento da vítima. Como se fosse necessário avaliar sua moral, suas escolhas ou sua postura para, só então, decidir o quanto sua morte merece indignação.
A mídia, nesse contexto, não apenas informa, ela estrutura percepções. Ao selecionar determinadas imagens e não outras, ao enfatizar certos aspectos e silenciar outros, contribui para a construção de uma narrativa em que o agressor se dilui, enquanto a vítima é, sutilmente, colocada sob suspeita.
Cria-se, assim, uma espécie de tribunal informal, no qual a vítima, mesmo após morta, ainda precisa “responder” por sua vida. Sua roupa, seus hábitos, os lugares que frequentava, tudo se torna objeto de análise, como se esses elementos pudessem, de alguma forma, explicar ou atenuar a violência sofrida.
Essa dinâmica é perigosa porque naturaliza o inaceitável. Ao deslocar o foco, enfraquece-se a compreensão do feminicídio como expressão de uma violência estrutural de gênero e reforça-se uma cultura de responsabilização da mulher pela agressão que sofreu.
Ter senso crítico, diante disso, é essencial. Significa perceber que não apenas o conteúdo, mas também a forma como ele é apresentado, comunica valores. Significa questionar escolhas que parecem neutras, mas que, na prática, moldam percepções e reforçam estigmas.
Porque a informação nunca é apenas informação.
Ela é também construção, enquadramento e, muitas vezes, indução.
E enquanto continuarmos consumindo essas narrativas sem questionamento, seguiremos permitindo que vítimas de feminicídio sejam, mais uma vez, violentadas mas agora, pelo olhar social que insiste em julgá-las, quando o único julgamento que importa é o de quem cometeu a violência.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.