Este é um tema que toca na ferida da cidadania brasileira. O artigo abaixo reflete essa indignação acumulada, confrontando a inversão de prioridades no país e a nossa própria postura diante dessas três realidades.
Nós, a classe produtiva — trabalhadores, produtores rurais, comerciantes, pequenos e médios empresários, profissionais liberais que fazem a roda da economia girar — estamos exaustos. Vivemos sob uma carga tributária sufocante, retirando do nosso próprio suor para sustentar um sistema que parece trabalhar contra a eficiência e a justiça social.
O governo despeja bilhões em programas de transferência de renda, como o Bolsa Família e outros penduricalhos (R$ 160 bilhões anuais). São migalhas de sobrevivência que mantêm cerca de 50 milhões de brasileiros em um estado de dependência eterna.
Onde estão as políticas sérias de independência? Onde está o incentivo para que esses brasileiros deixem de ser "excluídos" e passem a ser protagonistas da própria história? Não é o povo, são os políticos que vivem nesse sistema da política, pois nossos políticos perderam a dignidade através do trabalho.
Temos ainda que o pior! Atacamos a Base, mas nos calamos perante o topo, e é aqui que reside nossa maior contradição. Muitas vezes, reagimos com preconceito contra o pobre que recebe o auxílio. Esquecemos que são eles que "carpem nossos quintais", que cuidam de nossas casas, que fazem o "bico" na obra e garantem os pequenos serviços essenciais do nosso dia a dia. Atacamos a migalha de quem nos serve, mas nos acovardamos diante do banquete da elite do funcionalismo público e sob aplausos recebemos inócuas emendas parlamentares que nunca são recursos estruturantes.
Enquanto o auxílio médio do necessitado é de apenas R$ 274,33 mensais, os "penduricalhos" da elite do funcionalismo (Judiciário, Legislativo e Ministério Público) drenam cerca de R$ 25 bilhões por ano. Isso significa que cada um desses privilegiados recebe, em média um bolsa família de R$ 46.296,29 por mês apenas em benefícios extras.
Enquanto essa elite acumula privilégios que muitas vezes superam o teto constitucional, o que recebemos em troca? Serviços mal prestados, processos de aposentadoria que mofam por 5, 10 anos nas prateleiras dos tribunais. Punições de criminosos que prescrevem por pura inércia estatal, quando não são os próprios envolvidos nos mais escandalosos desvios de recurso, impunes, e somente leis que não enfrentam a desigualdade e punem quem trabalha e produz.
Nossos governantes, nada de apresentar recursos para destravar o marasmo do desenvolvimento de uma cidade ou região. Qual último grande investimento de um político em nossa região nesses últimos 25 anos? Pedágios!!! Quando aprecem são parcos recursos direcionados por um ou outros parlamentares através de seu pião (xadrez) vereador a lhe garantir 400, 500 votos em cada cidade e manter-se no poder. Sempre custeio, nunca investimento, é uma droga que cria dependência.
Nós nos calamos por medo ou, pior, por uma vontade velada de estar no lugar deles. Invejamos o privilégio em vez de exigir a sua extinção. O resultado? Tiramos de nós mesmos para sustentar um abismo: migalhas para quem não tem nada e luxo para quem já tem tudo, babar ovo de deputado para garantir uma assessoria. Nunca se viu tanto ex. prefeito e ex. vereadores saindo mandato e não voltando as suas atividades, mas agarrados em assessorias parlamentares, por dentro ou por fora, pois não tem profissão ou estabelecimento.
Analisemos o cenário político brasileiro, paulista e de Fartura e nossas outras cidades da região. Houve uma transformação silenciosa, porém devastadora, nas últimas décadas. Como alguém que exerceu mandatos e militou na vida pública entre 1994 e 2008, observo que a maior perda não foi de recursos e arrecadação, os impostos só aumentaram, mas foi perda de qualidade administrativa, os serviços não evoluem na qualidade e proporção da arrecadação. Digo mais, por vezes houve perda da identidade do político. A figura do "homem público" foi substituída pelo "profissional da política".
E assim, mais do que nunca, se formou a engrenagem Brasil: hoje se gasta com o assistencialismo, o privilegio e do político profissional, sobrecarregando ainda mais o custo Brasil.
No passado, o exercício de um mandato — fosse como vereador ou em outros cargos — era encarado como um serviço temporário à comunidade. Entre meus colegas, não havia quem vivesse exclusivamente da política. Éramos advogados, comerciantes, produtores rurais, e profissionais com origens de recursos claras e profissões estabelecidas. Tínhamos um "porto seguro" na iniciativa privada; a política era um capítulo, não o livro inteiro de nossas vidas.
Hoje, a realidade é outra. O que vemos é uma geração de políticos que, ao sair de um cargo, não consegue mais retornar à atividade econômica. Se colocar para trabalhar passa fome, já não conseguem sobreviver fora da engrenagem. Por isso tanta briga, tanta discussão, tanta polarização. Em vez de voltarem às suas profissões, orbitam eternamente em torno do Estado, "pendurados" em assessorias, cargos de confiança ou favores partidários.
E assim que se alimenta as esmolas dos programas sociais, e tem que sustentar a casta de privilegiados para que não derrubem a estrutura da mantença do político profissional. Enquanto essa nova classe se profissionaliza em manter-se no poder, as demandas da população permanecem estagnadas. Os remédios continuam faltando, as ruas seguem sem manutenção e os projetos estruturantes não decolam. O foco do político de carreira não é mais resolver o problema da cidade, mas garantir uma dependência dela dentro da engrenagem.
O mais preocupante, contudo, é a reação da sociedade. Cada vez mais caro, mais difícil, e mesmo assim não conseguimos reagir. Antigamente, respeitava-se o homem que tinha uma história de trabalho fora da política, e por isso dávamos uma oportunidade na política. Hoje, assistimos a uma espécie de idolatria por esses profissionais do poder e despreza se o trabalhador, o empreendedor. É assim a engrenagem.
Que animo tem o assistido para melhorar e ir para onde? Virar trabalhador e pertencer aos explorados?! Como o privilegiado vai explicar a família que deve abrir mão das vantagens! E aos profissionais políticos, como sobreviver fora da engrenagem!!
Não está longe para analisarmos as coisas, um sai da política e vai mamar nas tetas da assembleia, outro, diz não ia querer o salário, mas... outros assessores ou vinte quatro horas vereador. A engrenagem está clara: assistencialismo, privilégios e político profissional. A verdade já não liberta, so machuca.
Ocorre que o custo está alto demais para o povo trabalhador que vê a qualidade do serviço público minguar enquanto o custo de manutenção dessa engrenagem só aumenta.
É preciso resgatar o valor de quem tem origem, de quem tem profissão e de quem não precisa da política para sobreviver. Precisamos de politização, para não cair na engrenagem da polarização. Ou voltamos a valorizar o político que tem para onde voltar após o mandato, acreditar nas ideias e ideais ou lute meu amigo, para estar entre os privilegiados ou políticos profissionais, pois seu caminho será estar entre os assistidos.
Lauro Rogerio Dognani
Advogado e Agricultor
- Geral
- Colunas