Em tempos de campanha, o que não é dito pode revelar muito mais do que qualquer promessa
A corrida eleitoral começou muito antes de alguém apertar o botão da urna. Começou quando a política deixou de disputar apenas ideias e passou a disputar atenção. Quando uma frase de quinze segundos passou a valer mais do que uma proposta de quinze páginas. Quando candidatos perceberam que talvez não seja necessário convencer o eleitor, basta ocupar sua tela, seu feed, seu grupo de WhatsApp e, principalmente, sua indignação.
E então surge uma pergunta incômoda: em meio a tanto conteúdo político, estamos realmente discutindo política?
A democracia pressupõe escolha. Mas escolher exige conhecer alternativas, comparar projetos e desconfiar das respostas excessivamente fáceis para problemas difíceis. A política, porém, aprendeu a linguagem das redes: precisa ser rápida, emocional e compartilhável. Precisa caber no vídeo curto, na frase de efeito e no corte estrategicamente selecionado.
Nesse ambiente, a complexidade virou quase um defeito. É fácil prometer segurança pública; difícil é explicar como realizá-la. É conveniente defender a educação; mais difícil é apresentar orçamento e metas. É simples falar em proteção às mulheres; outra coisa é discutir delegacias especializadas, rede de atendimento, prevenção, investigação, medidas protetivas e recursos para que a legislação saia do papel.
Promessas são gratuitas. Políticas públicas, não.
Governar significa escolher prioridades, distribuir recursos e decidir quais problemas serão enfrentados. Por isso, talvez a pergunta mais importante de uma eleição não seja apenas “em quem você vai votar?”, mas: “O que você está exigindo de quem quer o seu voto?”
Existe uma diferença enorme entre eleitor e torcida. A torcida precisa acreditar; o eleitor precisa fiscalizar. A torcida procura argumentos para defender seu candidato; o eleitor procura informações para decidir. Uma democracia começa a adoecer quando cidadãos deixam de fiscalizar políticos para protegê-los.
E existe outra camada nessa disputa: quem consegue ocupar os espaços de poder?
Mulheres ainda enfrentam um ambiente político em que aparência, voz, roupa, maternidade e vida afetiva frequentemente são julgadas com uma intensidade que homens na mesma posição não experimentam. Quando uma mulher é ridicularizada pela aparência em vez de confrontada pelas ideias, não estamos fazendo crítica política. Quando sua vida privada é utilizada para diminuir sua capacidade pública, não estamos fiscalizando. E quando ataques de gênero são tratados como simples “jogo político”, normalizamos uma forma de afastamento das mulheres dos espaços de decisão.
Talvez este período eleitoral exija menos paixão por candidatos e mais compromisso com perguntas: qual é o projeto? Quanto custa? De onde virá o dinheiro? Quem será beneficiado? A trajetória confirma o discurso? Há propostas ou apenas inimigos?
Porque eleição não deveria ser concurso de carisma, campeonato de cortes de vídeo ou guerra entre conhecidos na internet. Eleição é contratação.
Candidatos passam. Campanhas terminam. Vídeos deixam de viralizar. Mas as decisões de quem vence permanecem muito depois que os santinhos desaparecem das ruas.
Por isso, nestas eleições, vale observar não apenas aquilo que os candidatos dizem, mas aquilo que evitam dizer. Não apenas as promessas, mas as prioridades. Não apenas as palavras, mas aquilo que existe entre elas.
Porque, na política, quase sempre é nas entrelinhas que o poder revela suas verdadeiras intenções.
Dra. Débora Garcia Duarte